Proteger o meio-ambiente: de quem é essa responsabilidade?
Trecho de um discurso dado por Daniel Quinn para a Sexta Conferência
Ambiental Anual da Universidade de Rice, Houston, Texas, 14 de
Fevereiro de 1998. Traduzido e adaptado por Janos Biro.
Era uma vez uma cidade onde perceberam que os pré-adolescentes estavam
começando a se jogar da cobertura de prédios altos com uma
freqüência alarmante. Por um momento ninguém soube de quem era a
responsabilidade de lidar com esse problema urgente. O conselho da
cidade se reuniu e rapidamente fez algumas regulações requerendo a
construção de grades de segurança na cobertura de todos os prédios
altos. Tendo essa forma de suicídio negada, as crianças começaram a
se jogar de prédios mais baixos, e logo todos os prédios com mais de
três andares precisavam instalar grades de proteção ou proibir o
acesso à cobertura. Os gastos foram grandes, mas é claro que o que é
despesa para uns é ganho para outros, então a economia continuou
crescendo.
Infelizmente, a taxa de suicídio pré-adolescente não diminuiu. Ao
invés de se jogarem de prédios, as crianças agora estavam se
afogando num rio que corria pela cidade. Isto foi ainda mais
assustador, porque ninguém conseguia pensar em maneiras práticas de
fazer os rios inacessíveis para suicidas. Ao mesmo tempo, ninguém
imaginava de quem era a responsabilidade de impedir esses afogamentos.
O conselho da cidade finalmente decidiu construir torres de vigia a
cada 500 metros por toda a margem do rio. Infelizmente, o efeito disso
foi meramente mover os suicídios que aconteciam durante dia para a
noite, quando os vigias estavam cegos pela escuridão. É claro, estava
totalmente fora de questão instalar holofotes para cobrir uma área
tão grande. Ao invés disso pareceu mais razoável instituir um toque
de recolher para crianças abaixo de 15 anos. Então, entre as torres
de vigia durante o dia e o toque de recolher de noite, os afogamentos
chegaram ao fim. Mas, oras, não os suicídios. As crianças começaram
a se enforcar. Líderes cívicos viram imediatamente que eles
precisavam da cooperação dos pais para controlar esse novo problema,
então iniciaram um programa de educação massiva para mostrar aos
pais como diminuir as oportunidades de enforcamento nas suas casas e em
sua vizinhança. As cordas foram escondidas em lugares trancados.
Cintos, gravatas e suspensórios foram banidos. Os quartos eram
rotineiramente vasculhados para procurar evidências de projetos de
entrelaçamento de tecidos para fazer cordas.
Enquanto as oportunidades de enforcamento diminuíam, as crianças
encontraram outras oportunidades em garrafas, jarros, caixas de
remédios, estufas e garagens. Com esses meios, elas foram bem
sucedidas em ficarem doentes, cegas, em coma, com danos cerebrais e
muito comumente, mortas. Novos programas educacionais foram
implementados, e a cidade expandiu as atividades de seu controle de
venenos para incluir visitações e inspeções. Os hospitais logo
notaram que houve uma queda nos pacientes pré-adolescentes que ficavam
meramente doentes, cegos, em coma ou com danos no cérebro, mas ao
mesmo tempo houve um aumento dramático daqueles que simplesmente
morriam. Um repórter do jornal local logo descobriu a explicação.
Como os venenos se tornaram inacessíveis em casa, negociantes
adolescentes começaram a trazer o que faltava para o ambiente escolar.
Não apenas os venenos estavam facilmente avaliáveis ali, mas as
pressões de mercado permitiram que eles fossem de alta qualidade, o
que significa que, diferente dos produtos achados aleatoriamente pela
casa, estes eram seguramente mortais.
Naturalmente, oficiais de justiça ordenaram uma sanção para o
mercado de drogas no recreio. E naturalmente isto não acabou com o
mercado, apenas aumentou os preços. A incidência de crimes entre os
pré-adolescentes subiu numa tentativa de arranjar fundos para comprar
as drogas. Então um dia um garoto armado, de apenas 11 anos, foi
baleado por um policial durante um roubo. Isso foi uma revelação para
os suicidas, pois eles de repente perceberam que era mais fácil
encontrar a morte nas balas de um policial do que pelos métodos
convencionais, que a cidade fez tanto esforço para manter fora de
alcance. Da noite para o dia, um quinto dos pré-adolescentes estavam
fazendo de tudo para se tornarem alvos atrativos para a força letal.
O conselho da cidade rapidamente se encontrou para discutir a crise. O
comissário de polícia estava pedindo mais segurança para o público.
O líder do sindicato da polícia estava pedindo mais segurança para
os oficiais da lei. O chefe do gabinete de governo estava explicando
que não havia mais fundo algum para aplicar nisso. O superintendente
da escola queria patrulhas especiais nas salas e corredores. O líder
do sindicato dos professores, por outro lado, queria que as escolas
fechassem mais cedo. Um advogado da cidade propôs desenvolver um
sistema de aviso pré-suicídio, para que os garotos pudessem ser
presos para sua própria segurança. O chefe do departamento de prisão
disse que as celas já estavam lotadas com candidatos a suicídio, com
um número chocante deles condenado a dormir no chão.
Um membro do púbico geral, uma cidadã comum, finalmente conseguiu
chegar à frente e fazer sua observação. "Ao invés de gastar todo
esse tempo, energia e dinheiro para evitar que as crianças continuem
fazendo o que elas querem fazer", ela disse, "por que não gastamos um
pouco para descobrir porque elas QUEREM fazer isso? O que as está
IMPELINDO para o suicídio? Nós temos que responder isso, para que
então possamos fazer alguma coisa. Nós não TEMOS que patrulhar o rio
e guardar os tetos e esconder nossas gravatas e todo o resto". Bem,
esta declaração chocou a assembléia por um longo momento de
silêncio. Então uma onda de olhares perplexos e ombros encolhidos
passou pela sala, e os membros do conselho continuaram sua conversa
anterior exatamente do ponto onde foram interrompidos.
A questão é: porquê? Por que esta cidadã foi ignorada? Foi porque
ela não estava acompanhando a idéia de que o suicídio de
pré-adolescentes é responsabilidade do governo? Todos sabemos quais
as responsabilidades do governo. A responsabilidade do governo é fazer
e executar regulamentos. Governos conduzem TODOS os problemas como se
fossem questões de fazer e executar regulamentos. Eles reduzem todos
os problemas a coisas para as quais regulamentos podem ser feitos e
executados. Esta fortuita cidadã estava tentando propor uma condução
do problema que não tinha nada a ver com fazer regulamentos, e por
isso foi ignorada. Justamente ignorada, do ponto de vista do conselho.
Então, de quem é a responsabilidade de proteger o meio-ambiente?
Vamos começar perguntando o que é esse tal de "meio-ambiente".
Alguém poderia dizer onde está o meio-ambiente? Sim, o meio-ambiente
é algo que se estende do fundo da terra até o alto do céu. Abarca
trilhões de metros cúbicos de terra, ar e água. E de quem é essa
tremenda responsabilidade de proteger trilhões de metros cúbicos de
terra, ar e água? Vou começar com uma sugestão, se proteger
trilhões de metros cúbicos de terra, ar e água tem alguma coisa a
ver com fazer e executar regulamentos sobre TODAS as coisas, então
adivinhe só de quem é a responsabilidade? Se você respondeu "o
governo", acertou.
É verdade que é trabalho do governo "proteger o meio-ambiente", mas
essa não é uma descrição significativa do nosso problema. É um
termo burocrático inventado para manter pessoas como aquela cidadã
caladas. Proteger o meio-ambiente não é nem de longe o suficiente. O
que queremos é o que essa cidadã queria. Ela não queria dificultar o
suicídio das crianças, isso é o que os burocratas fazem. Ela queria
evitar que as crianças desejassem se matar. Nossa situação é a
mesma. Pessoalmente, eu não sou apaixonado pelo meio-ambiente.
Qualquer um que se apaixone por algo chamado "meio-ambiente" tem o
coração de um legislador. Mas eu amo o mundo. Eu tenho um desejo
sincero de salvar o mundo. E esse é um desejo que compartilho com
milhões de pessoas. Pessoas que tem uma intuição sobre o que seja o
mundo. O mundo é nosso lar. Não é somente nosso "meio-ambiente".
Salvar o mundo significa dar aos nossos filhos um lugar para crescerem
e terem seus próprios filhos, e assim por diante.
Adotando a estratégia de "proteger o meio-ambiente", nossos líderes
adotam a mesma estratégia reacionária dos líderes da minha fábula.
Os oficiais da minha fábula eram estúpidos. Nossos líderes não são
estúpidos, estão apenas agindo de acordo com a mitologia da nossa
cultura, que apresenta os humanos como intrinsecamente destrutivos e
sem esperança. Os adolescentes da minha fábula pareciam impelidos a
se matarem, mas ninguém perguntava porquê. Nós parecemos impelidos a
destruir o meio-ambiente, e similarmente não ocorre aos nossos
protetores governamentais se perguntarem porquê. Aprendemos que os
seres-humanos são NATURALMENTE destrutivos. Logo, para qualquer um sob
o feitiço da nossa mitologia cultural, "proteger o meio-ambiente" é
tudo que se pode fazer.
Na História de B eu redefini nossa missão. Nossa missão não é
proteger o meio-ambiente, é mudar mentes. Proteger alguma coisa é
combater o efeito de uma agressão, é DEPENDER da causa da agressão,
e não agir contra ela. Este tipo de proteção pode continuar para
sempre. A primeira mudança que precisamos fazer é esquecer essa
idéia de que "proteger o meio-ambiente" é o melhor que podemos fazer,
porque não é suficiente. "Proteger o meio-ambiente" é para
burocratas com cabeças velhas, salvar o mundo é diferente. Alguém
aí espera que um presidente salve o mundo? Não, salvar o mundo é
importante demais para deixar nas mãos deles. Salvar o mundo é para o
resto de nós.
Notas
As perguntas de um membro da audiência me fizeram escrever essas notas
sobre o que significa salvar o mundo. Com certeza não significa
conservá-lo exatamente como ele se encontra agora, ou retornar a um
estado evolucionário supostamente ideal. Significa sermos capazes de
viver nesse mundo sem que tenhamos que o destruir, porque não há
ser-vivo neste planeta, mesmo que seja da espécie humana, que seja
naturalmente incapaz de fazer isso.
Notas do tradutor: A fábula foi traduzida praticamente na íntegra,
já os comentários finais foram resumidos e adaptados para diminuir o
tamanho do texto. Leia o texto original no site www.ishmael.org .
Janos Biro
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Comentário by Carlos Eduardo Vaz — quarta-feira 12 setembro 2007 @ 13:41